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terça-feira, 9 de julho de 2013

Quando desejos outros é que falam






Quando desejos outros é que falam
e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.

Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
ocultas melodias ovidianas.


Carlos Drummond de Andrade, O amor natural

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Soneto da donzela ansiosa


Arreitada donzela em fofo leito,
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtis pachocho estreito.

De louro pelo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.

A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.

Como é inda boçal, perder os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.


Manuel du Bocage

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Soneto 139 - Oroerótico (ou oroteórico)


Segundo especialistas, a chupeta
depende da atitude do chupado:
se o pau recebe tudo, acomodado,
ou fode a boca feito uma boceta.

Pratica “irrumação” o pau que meta
e foda a boca até ter esporrado;
Pratica “felação” se for mamado
e a boca executar uma punheta.

Em ambos casos, mesma conclusão.
O esperma ejaculado na garganta
destino certo tem: deglutição.

Segunda conclusão: de nada adianta
negar que a boca sofra humilhação,
pois, só de pensar nisso, o pau levanta.


Glauco Mattoso

domingo, 23 de dezembro de 2012

A Torre de Babel ou a porra do Soriano

























Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
          Para o cantar inteiro e para o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
          Dez séculos!
                                     Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem colhões de que dão ideia vaga
as nádegas brutais do Arcebispo de Braga.

                                             *

Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
          Mastro de Leviatã! Iminência revel!
          Estando murcho foi a Torre de Babel
          Caralho singular! É contemplá-lo
                                                                                É vê-lo
teso! Atravessaria o quê?
                                                          O Sete-Estrelo!!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra!
          É uma porra, arquiporra!
                                                                É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder a Terra, Eva no Paraíso!!
          É uma porra infinita, é um caralho insonte
que nas roscas outrora estrangulou Laoccoonte.

                                             *

Oh, caralho imortal! Oh glória destes lusos!
Tu podias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cachos do Alto Douro!
Onde é que há um abismo, onde há um sorvedouro 
que assim possa conter esta porra do diabo??!
O Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
          — Nada, nada contém a porra do Soriano!!

                                             *

Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova, 
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita??
— Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe dá de abrir talvez um dia um terramoto
para que deságüe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langolha!!!

                                             *

A porra do Soriano, é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
          Onde é que ela começa?
                                                            Onde é que termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento
porque é porra de pardal e porra de jumento??
          Porra!
                         Mil vezes porra!
                                                            Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmo num minuto!!


Guerra Junqueiro, 1882.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Cantiga de maldizer


Maria Mateu, daqui vou desertar.
De cona não achar o mal me vem.
Aquela que a tem não me quer dar
e alguém que me daria não a tem.
       Maria Mateu, Maria Mateu,
       tão desejosa sois de cona como eu!

Quantas conas foi Deus desperdiçar
quando aqui abundou quem as não quer!
E a outros, fê-las muito desejar:
a mim e a ti, ainda que mulher.
       Maria Mateu, Maria Mateu
       tão desejosa sois de cona como eu!


Afonso Anes de Cotom (trovador português do século XIII),
Antologia da poesia portuguesa erótica e satírica 

Mari’Mateu, ir-me quer’eu daquém,
porque nom poss’um cono baratar:
alguém que mi o daria nõn’o tem,
e algum que o tem nom mi o quer dar.
       Mari’Mateu, Mari’Mateu,
       tam desejosa ch’és de cono com’eu!
  
E foi Deus já de conos avondar
aqui outros, que o nom ham mester,
e ar feze-os muito desejar
a mim e ti, pero que ch’és molher.
       Mari’Mateu, Mari’Mateu,
       tam desejosa ch’és de cono com’eu!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Soneto 126


Tu, adorado menino, que deténs em teu poder
A ampulheta do Tempo, a foice das horas,
Que cresceste ao vê-lo minguar, e assim mostraste
O fim dos amantes, à medida que, doce, avançavas;
Se a Natureza (senhora absoluta dos desastres)
Mesmo que te adiantes, ainda te reterás,
Ela te mantém por um motivo: com seu dom
Desgraçará o Tempo, e matará os malditos minutos.
Mas teme-a, tu, seu filho favorito,
Ela te deterá, mas não guardará o seu tesouro!
     Mais cedo ou mais tarde, terás de responder-lhe,
     E sua satisfação será apenas a de dominar-te.


William Shakespeare, 1609
Tradução Thereza Christina Rocque da Motta

O thou, my lovely boy, who in thy power
Dost hold Time's fickle glass, his sickle, hour;
Who hast by waning grown, and therein show'st
Thy lovers withering as thy sweet self grow'st;
If Nature, sovereign mistress over wrack,
As thou goest onwards, still will pluck thee back,
She keeps thee to this purpose, that her skill
May time disgrace and wretched minutes kill.
Yet fear her, O thou minion of her pleasure!
She may detain, but not still keep, her treasure:
     Her audit, though delay'd, answer'd must be,
     And her quietus is to render thee.

domingo, 28 de outubro de 2012

A que está sempre alegre (A celle qui est trop gaie)

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria em cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!












Charles Baudelaire, Les fleurs du mal 
Tradução Ivan Junqueira












Ta tête, ton geste, ton air
Sont beaux comme un beau paysage;
Le rire joue en ton visage
Comme un vent frais dans un ciel clair.

Le passant chagrin que tu frôles
Est ébloui par la santé
Qui jaillit comme une clarté
De tes bras et de tes épaules.

Les retentissantes couleurs
Dont tu parsèmes tes toilettes
Jettent dans l’esprit des poètes
L’image d’un ballet de fleurs.

Ces robes folles sont l’emblème
De ton esprit bariolé;
Folle dont je suis affolé,
Je te hais autant que je t’aime!

Quelquefois dans un beau jardin
Où je traînais mon atonie,
J’ai senti, comme une ironie,
Le soleil déchirer mon sein;

Et le printemps et la verdure
Ont tant humilié mon coeur,
Que j’ai puni sur une fleur
L’insolence de la Nature.

Ainsi je voudrais, une nuit,
Quand l’heure des voluptés sonne,
Vers les trésors de ta personne,
Comme un lâche, ramper sans bruit,

Pour châtier ta chair joyeuse,
Pour meurtrir ton sein pardonné,
Et faire à ton flanc étonné
Une blessure large et creuse,

Et, vertigineuse douceur!
A travers ces lèvres nouvelles,
Plus éclatantes et plus belles,
T’infuser mon venin, ma soeur!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pouco acima daquela alvíssima coluna


Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou, vendo-a, sem, na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu da boca se me enfuna
de beijos — uns, sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do meu Ser; outros
— hóstias ideais dos meus anseios,
e todos cheios, todos cheios
do meu infinito amor . . .
Taça
que encerra
por
suma graça
tudo que a terra
de bom produz!
Boca!
o dom
possuis
de pores
louca
a minha boca!
Taça
de astros e flores,
na qual
esvoaça
meu ideal!
Taça cuja embriaguez
na via-láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz...

Hermes Fontes (1888-1930)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Soneto luxurioso VI


      Atenta bem, ó tu que amando estás
E a quem turva tão doce empreendimento,
Neste que leva a cabo tal intento
Ledamente fodendo onde lhe apraz.

      Sem de qualquer escola andar atrás
Por trepar verbi gratia a todo tento,
Fará feito sem par e a seu contento
O que possa foder sem ver loquaz.

      Vede como nos braços a levanta
Ele, que as pernas dela tem dos lados
E como de prazer já se quebranta.

      Não se perturbam por estar cansados.
Mas o jogo lhes dá ardência tanta
Que fodendo queriam-se finados.

      E retos, sem cuidados,
Ofegam juntos, de prazer frementes,
E enquanto ele durar, estão contentes.

Pietro Aretino, Sonetos luxuriosos
Tradução José Paulo Paes

terça-feira, 29 de maio de 2012

Poemeto erótico


Teu corpo claro e perfeito,
— Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha…

Teu corpo é tudo o que cheira…
Rosa… flor de laranjeira…

Teu corpo, branco e macio,
É como um véu de noivado…

Teu corpo é pomo doirado…

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume…

Teu corpo é a brasa do lume…

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes…

É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em antigas se derrama…

Volúpia da água e da chama…

A todo o momento o vejo…
Teu corpo… a única ilha
No oceano do meu desejo…

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira…
Rosa, flor de laranjeira…

Manuel Bandeira, A cinza das horas

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Seio de virgem


Quand on te voit, il vient à maints
Une envie dedans tes mains
De te tâter, de te tenir...
Clément Marot

O que sonho noite e dia,
E à alma traz-me poesia
E me torna a vida bela...
O que num brando roçar
Faz meu peito se agitar,
É o teu seio, donzela!

Oh! quem pintara o cetim
Desses limões de marfim,
Os leves cerúleos veios
Na brancura deslumbrante
E o tremido de teus seios?

Quando os vejo... de paixão
Sinto pruridos na mão
De os apalpar e conter...
Sorriste do meu desejo?
Loucura! bastava um beijo
Para neles se morrer!

Minhas ternuras, donzela,
Voltei-as à forma bela
Daqueles frutos de neve...
Ai!... duas cândidas flores
Que o pressentir dos amores
Faz palpitarem de leve.

Mimosos seios, mimosos,
Que dizem voluptuosos:
"Amai, poetas, amai!
Que misteriosas venturas
Dormem nessas rosas puras
E se acordarão num ai!"

Que lírio, que nívea rosa,
Ou camélia cetinosa
Tem uma brancura assim?
Que flor da terra ou do céu,
Que valha do seio teu
Esse morango ou rubim?

Quantos encantos sonhados
Sinto estremecer velados
Por teu cândido vestido!
Sem ver teu seio, donzela,
Suas delícias revela
O poeta embevecido!

Donzela, feliz do amante
Que teu seio palpitante
Seio d’esposa fizer!
Que dessa forma tão pura
Fizer com mais formosura
Seio de bela mulher!

Feliz de mim... porém não!...
Repouse teu coração
Da pureza no rosal!
Tenho no peito um aroma
Que valha a rosa que assoma
No teu seio virginal?...

Álvares de Azevedo, Lira dos vinte anos

sábado, 5 de maio de 2012

Boceta









dessa eterna
morada
da morte
diária molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba

entre lábio e lábio
de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba o tempo

Arnaldo Antunes

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poema de amor sobre um tema de Whitman (Love poem on a theme by Whitman)


entrarei furtivamente no quarto e me deitarei entre o noivo e a noiva,
esses corpos estendidos caídos do céu esperando nus em desassossego,
braços recostados sobre os olhos na escuridão,
cravarei meu rosto em seus ombros e peitos, respirando suas peles,
e acariciarei e beijarei pescoços e bocas e farei seus traseiros se abrirem e se exporem,
pernas levantadas e dobradas em aceitação, cacete nas trevas desgovernado e atacando
em riste do buraco à cabeça inflamada,
corpos oprimidos estremecendo nus, quadris e bundas ardentes aferrados uns nos outros
e olhos, olhos faiscantes e fascinantes, dilatando-se em olhares e abandono,
e gemidos de movimentos, vozes, mãos ao ar, mãos entre as coxas,
mãos lubrificadas nos quadris amolecidos, ventres latejando contraídos,
até o branco jorrar sobre os lençóis revoltos,
e a noiva chorar por perdão, e o noivo se cobrir de lágrimas de paixão e compaixão,
e eu me levantar da cama saciado com os últimos gestos íntimos e beijos de despedida —
tudo isso antes de a mente despertar, por entre cortinas e portas fechadas de uma casa escura,
onde os habitantes vagueiam insatisfeitos durante a noite,
fantasmas nus se procurando no silêncio.

Allen Ginsberg, Reality sandwiches
Tradução Azzazzel Saint


I'll go into the bedroom silently and lie down between the bride-groom and the bride,
those bodies fallen from heaven stretched out waiting naked and restless,
arms resting over their eyes in the darkness,
bury my face in their shoulders and breasts, breathing their skin,
and stroke and kiss neck and mouth and make back be open and known,
legs raised up crook'd to receive, cock in the darkness driven tormented and attacking
roused up from hole to itching head,
bodies locked shuddering naked, hot lips and buttocks screwed into each other
and eyes, eyes glinting and charming, widening into looks and abandon,
and moans of movement, voices, hands in air, hands between thighs,
hands in moisture on softened lips, throbbing contraction of bellies
'till the white come flow in the swirling sheets,
and the bride cry for forgiveness, and the groom be covered with tears of passion and compassion,
and I rise up from the bed replenished with last intimate gestures and kisses of farewell —
all before the mind wakes, behind shades and closed doors in a darkened house,
where the inhabitants roam unsatisfied in the night,
nude ghosts seeking each other out in the silence.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Inédito


Nunca te foram ao cu,
Nem nas perninhas, aposto!
Mas um homem como tu,
Lavadinho, todo nu, gosto!

Sem ter pentelho nenhum
Com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.

Vou-lhes ao cu,
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!

António Botto, Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A língua lambe


A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

Carlos Drummond de Andrade, O amor natural

terça-feira, 3 de abril de 2012

O fauno


Na calada
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte,
Grita o fauno:

— "Bem que velho,
Te reclamo,
Bem que velho,
Te desejo,
Quero e chamo,
O novelletum quod ludis
In soliludine cordis!
Ó desejada que ainda
Não sabes que és desejada!
Deixa os brancos véus do pejo
E no inóspito jardim
Das oliveiras te cobre
Do cilício da paixão!
Respira as auras ardentes,
Cospe fogo,
Vira vento e furacão,
Sopra rijo sobre mim,
Me delabra, me ensorcela,
Ninfa bela!
Não jamais
Ninfomaníaca: és triste,
És calada,
És elegíaca.
Por isso mesmo é que te amo,
Te desejo,
Quero
E chamo,
Ninfa! Aonde estás? Aonde?..."

Grita o fauno, mas só o eco
De sua voz lhe responde
Na calada
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte.

Manuel Bandeira, Estrela da tarde

segunda-feira, 26 de março de 2012

A ninfa e os pastores


Por debaixo de um cobertor,
      No campo de uma hospedaria,
      Benza Deus, com que valentia
Travou-se uma guerra de amor.

Phillis, que gosta de foder
      Como os deuses de sacrifícios,
Pensava em ter maior prazer
      Alternando os dois orifícios.

De Corydon o ansioso nabo
      Que na frente já quase enfiara,
      Molhou com longo beijo para
Pôr no — menos usado — rabo.

Por bem mais comprido, ao caralho
      De Estêvão, em pé de tesão,
Na cona lhe deu agasalho,
      A ele em tantas pugnas campeão.

Uma guerra civil logo há de
      Romper, intestina e feroz,
      Ao se toparem os heróis
Dentro das tripas da beldade.

Numa fúria de sangue e fogo,
      Enristam, empurram, espremem-se,
Almas que se atiram uma à outra
      Envoltas em grumos de sêmen.

O cu da cona separou
      A Natureza por caução.

Sabe Deus que desolação
      Uma guerra assim não causou.

Nem por isso a cena se fecha
      De modo pior que o desejado!
A ninfa jaz batida em brecha
      E os dois pastores esfalfados.


John Wilmot (Conde de Rochester), manuscrito da Real Biblioteca de Estocolmo, século XVII
Tradução José Paulo Paes


In  the Fields of Lincoln's Inn,                 
Underneath a woollen blanket,           
On a flock-bed, God be thanked,       
Feats of active love were seen.               

Phillis, who, you know, loves swiving       
As the Gods love pious prayers,        
Lay most pensively contriving                 
How to use her pricks by pairs.         

Corydon's aspiring tarse,                        
Which to cunt had near submitted,    
Wet with amorous kiss she fitted      
To her less frequented arse.                   

Strephon's was a handful longer,             
Stiffly propped with eager lust —       
In Love's wars no champion stronger —   
This into her cunt she thrust.             

Now for civil wars prepare,                      
Raised by fierce intestine bustle,       
When these heroes meeting justle     
In the bowels of the fair.                         

They tilt and the thrust with horrid pudder;
Blood and slaughter is decreed,         
Hurling souls at one another                   
Wrapt in flanky clots of seed.            

Nature had 'twixt cunt and arse              
Wisely placed firm separation.          

God knows else what desolation       
Had ensued from warring tarse.              

Nor did th'event of what we treat on         
Happen worse than desired:             
The nymph was sorely ballock beaten,    
Both the shepherds soundly tired.    

terça-feira, 20 de março de 2012

Em face dos últimos acontecimentos


Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

Carlos Drummond de Andrade, Brejo das almas

quinta-feira, 15 de março de 2012

Plena nudez


Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero em pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas...

Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
De transparente túnica através:

Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus... toda nua, da cabeça aos pés!

Raimundo Correia, Sinfonias

sexta-feira, 9 de março de 2012

Coito


Todos os movimentos
     do amor
     são noturnos
mesmo quando praticados
     à luz do dia

Vem de ti o sinal
     no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
     em seu fosso:
     na treva, lento,
     se desenrola
                       e desliza
em direção a teu sorriso

Hipnotiza-te
com seu guizo
                     envolve-te
em seus anéis
corredios
              beija-te
              a boca em flor
e por baixo
   com seu esporão
   te fende te fode

   e se fundem
   no gozo

depois
desenfia-se de ti

   a teu lado
   na cama
   recupero minha forma usual.

Ferreira Gullar, Muitas vozes
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