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sexta-feira, 9 de março de 2012

Coito


Todos os movimentos
     do amor
     são noturnos
mesmo quando praticados
     à luz do dia

Vem de ti o sinal
     no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
     em seu fosso:
     na treva, lento,
     se desenrola
                       e desliza
em direção a teu sorriso

Hipnotiza-te
com seu guizo
                     envolve-te
em seus anéis
corredios
              beija-te
              a boca em flor
e por baixo
   com seu esporão
   te fende te fode

   e se fundem
   no gozo

depois
desenfia-se de ti

   a teu lado
   na cama
   recupero minha forma usual.

Ferreira Gullar, Muitas vozes

sábado, 21 de janeiro de 2012

Definição da moça


Como defini-la
quando está vestida
se ela me desbunda
como se despida?

Como defini-la
quando está desnuda
se ela é viagem
como toda nuvem?

Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do que quando nua?

Como possuí-la
quando está desnuda
se ela é toda chuva?
se ela é toda vulva?

Ferreira Gullar, Muitas vozes

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sortilégio


Eu estava ali
no escuro e
     de repente
     o silêncio se move

     enruga-se, melhor
     dizendo, e me
     roça as virilhas
     (onde dormiam fúrias)

É quando uma
quase voz me toca
o lado esquerdo
do corpo para onde
me volto
e estás ali
nua

     emergias da treva
as coxas o ventre
os seios
            eram luas encantadas
            e do centro
            do teu corpo
            a macia estrela negra
me chamava
para dentro de si
enquanto o teu rosto menino
espantosamente familiar
sorria a me dizer: jamais
            jamais jamais
            escaparás

Ferreira Gullar, Muitas vozes

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Um sorriso


Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
                   embaixo
                   te espetalas
quando
            com meu facho aceso e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
         que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
                       que busco eu
                                           em fogo
                       aqui em baixo?
                       senão colher com a repentina
                       mão do delírio
                       uma outra flor: a do sorriso
                       que no alto o teu rosto ilumina?

Ferreira Gullar, Na vertigem do dia
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